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5 on 5: a pior semana da minha vida

Prefácio 

“O mundo não pára de girar para você sofrer”, essa é uma frase que eu repito com frequência. Mas ela nunca fez tanto sentido quanto agora. E já que o mundo não vai parar para eu sofrer, que, pelo menos, eu possa diluir esse sofrimento de uma forma criativa. Estou aproveitando esse desafio de retratar, em 5 fotos, momentos da vida como se fossem capítulos de livro. E se fosse para intitular, o meu livro se chamaria: a pior semana da minha vida.

Prólogo 

Eu estava sozinha em casa quando a notícia chegou. Eu poderia dizer que já esperava por ela, mas a verdade é que, no fundo, eu tinha esperanças de que não seria agora. 

Era domingo de manhã. Se fosse há 25 anos atrás, nós estaríamos juntos voltando da igreja naquele horário. Ou talvez já estivéssemos em casa, almoçando um frango assado que você costumeiramente comprava aos domingos. 

Mas neste domingo, dia 29/03/26, eu não tive nada disso. Não tinha um culto alegre, não tinha almoço de domingo, não tinha a sua companhia, não tinha absolutamente ninguém comigo. Só a dor mais forte que já senti ao ler uma mensagem. E assim, com o celular na mão, tentando não acreditar no que eu lia, eu desmoronei naquele chão frio. 

Era domingo de manhã. Final de março. As tais “águas de março” além de levarem o verão também levaram você. E meu primeiro pensamento foi: não tive tempo de me despedir.


“E se as fotos e retratos que eu nem lembrava mais
Ressurgissem pra mostrar que tudo aquilo também já ficou pra trás”
(Hadassa – Copo meio cheio)
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Capítulo 1: a viagem

Eu nem me lembrava da última vez que havia passado tantas horas dentro de um ônibus. A tal poltrona tipo “leito” era para ser confortável? E o ar condicionado é tão forte assim mesmo? E por que as pessoas não fecham as cortinas? É impossível dormir com a claridade entrando… Eu estou completamente desconfortável e ainda tenho mais 7 horas de viagem pela frente. Mas talvez a culpa não seja da poltrona, nem do ar condicionado gelado ou das outras pessoas. Minha mente é que não consegue descansar e curtir a viagem. Isso porque ela sabe o destino do percurso. 

Eu estou indo para a cidade que você decidiu morar no final da sua vida, mas não será para uma visita animada ou um reencontro surpresa. Você não vai poder me contar mais uma história que eu nunca saberei até que ponto é verdade ou invenção, nem vai cantar uma música ou tocar algum dos seus instrumentos. Ao mesmo tempo que essa viagem é barulhenta e minha mente está inquieta, eu sei que o final desse caminho é o total silêncio. E é por isso que eu não durmo.

Finalmente cheguei à primeira etapa do destino: a maior rodoviária que eu já estive na vida. Para mim, parece um aeroporto de tão grande que é. Numa situação comum, eu estaria muito empolgada, querendo andar em todos os cantos para sentir aquela sensação de “cidade grande” que esse lugar traz. Mas agora eu só consigo olhar em volta e pensar em quantas pessoas estão como eu, indo para um destino de última despedida. Será que elas também estão se sentindo desconfortáveis?

“Estou longe de casa há tanto tempo

E com o tempo se aprende

Tão inútil é o orgulho

Passageiro é o mundo

E que importância tem os medos

Se serão irrelevantes com o tempo?”

(Marcela Tais – Voar)

Capítulo 2: a despedida

Eu tenho uma formação de ensino superior, uma pós graduação, inúmeros cursos extensivos no currículo, mas não há nada que pudesse me preparar para esse momento. O motorista da funerária me disse que eu preciso te ver para ele poder te levar. Esse era o meu maior pesadelo, o tal do reconhecimento do corpo. Eu não quero te ver assim!!! Eu ainda não quero acreditar que isso aconteceu! Eu não quero correr o risco de nunca mais apagar da minha memória a imagem de você dentro de um saco preto, deitado sozinho numa maca, numa sala pequena do lado de fora do hospital! Droga! Já aconteceu! Eu estou aqui exatamente diante dessa cena e não tenho como fugir, essa imagem nunca mais vai sair da minha mente… Por que tinha que ser assim?!

Eu poderia ter fugido. Mas eu não quis fugir. Eu olho para o lado e vejo aquele que escolheu caminhar comigo para sempre. Aquele a quem você me entregou numa cerimônia ao ar livre, debaixo de um céu azul, você se lembra? (Se lembraria se estivesse aqui). Você não está mais, mas ele está. Há alguns minutos, ele segurou meu rosto em suas mãos e perguntou se eu não preferia que ELE fizesse isso em meu lugar. Eu acho que essa é a maior demonstração de amor que eu poderia receber. Mas mesmo assim eu rejeitei a oferta e escolhi enfrentar o que me esperava. Mas ele está aqui, ao meu lado e disso eu nunca vou esquecer.

As horas dessa segunda-feira se passaram tão rápido e quando me dou conta estamos todos aqui juntos. Uma parte da sua família que eu não tinha memória, mas eles tinham de mim. E no meio de nós está você. Sinceramente te olhando assim tão sereno eu poderia jurar que era mais uma de suas piadas. Sinto como se a qualquer momento você fosse se levantar e dar uma gargalhada na nossa cara. Mas isso não acontece. A tampa de madeira te esconde e traz a certeza de que nunca mais irei te ver. As flores em minhas mãos trêmulas serão o último presente que te entregarei e mesmo assim você nem as verá. Antes delas, eu não lembro do último presente que te dei, será que você se lembraria?

Viver é só um ensaio de uma vida eterna
Nesta vida eu nada ganho, meu vazio é do Teu tamanho”
(Marcela Tais – Voar)

Capítulo 3: eu não estou sozinha

Essa segunda parece que durou dias. Eu ainda não consigo processar tudo que vivi e senti. Mas uma certeza eu tenho: não me sinto sozinha. Tenho primos de sua parte que me acolheram e me orientaram tão bem. Eles guardaram seu violão para mim, estou com ele agora. Será que finalmente eu aprenderei a tocar mais de uma música?

Tenho também meus primos por parte de mãe, como é bom a sensação de ter a família perto nesse momento. Depois de mais um banho, uma janta gostosa feita com tanto amor e uma noite de brincadeiras com uma criança maravilhosa, eu só consigo agradecer. Eu não estou sozinha.

E eu amo como as crianças são simples e ao mesmo tempo profundas. Olho para a Valentina e percebo como ela me envolve em suas brincadeiras, sem imaginar que, com os seus quase 10 anos, está curando em mim dores que eu nem tinha percebido. Criamos uma loja de semijoias que se chama “Valen Mara” (Valentina + Tamara) e fizemos brincos, colares e chaveiros com seu kit de fazer acessórios. Eu poderia ficar a semana toda fazendo isso, vivendo num mundo de faz-de-conta com essa mini diva maravilhosa. Mas eu sei que depois de dormir essa noite, a realidade do mundo estará lá me esperando amanhã.

Capítulo 4: os desafios

Onde aperta para pausar? Não tem como, eu já repeti para mim mesma, mais uma vez, que “o mundo não pára de girar para você sofrer, Tamara”. Então assim, eu vou tentar trabalhar à distância pelo celular, acompanhar uma audiência que eu deveria estar fazendo, depois enfrentar procedimentos de cartórios para corrigir o erro deles, tentar falar com a prefeitura para solucionar outra questão, ligar para outra pessoa para entregar documentos e tomar um banho de chuva porque estou fazendo tudo isso nunca numa cidade desconhecida e sem sombrinha para me proteger. 

Mas no final desta terça-feira, só me resta mais uma vez olhar para o lado e agradecer. Porque eu não estou sozinha. Vejo no sofá, aquele que continua escolhendo permanecer ao meu lado, mesmo diante de toda confusão que minha vida se torna. Ele está lá sendo ele mesmo: a minha mais pura calmaria. Ele e um doguinho que se me contasse há alguns anos que seríamos amigos eu não discordaria. Mas olha só como estou em paz, com um homem que escolheu me amar, primos que escolheram me acolher, uma criança para brincar e doguinho que decidiu ser meu amigo. Você não está aqui, mas ficaria feliz se estivesse.

Capítulo 5: o retorno

O retorno para casa foi dolorido. A despedida agora é de pessoas que vão permanecer aqui mas que eu também não sei quanto tempo mais vou esperar para reencontrar. E essa sensação de que pode ser a última vez traz um nó na minha garganta. Voltei dessa viagem querendo viver cada dia como se fosse o último. Já dizia uma amiga: “um dia eu acerto”.

quarta, quinta, sexta, sábado…

Os dias passam voando. Fui engolida pela rotina que não me espera superar nada. O trabalho chama, as demandas não resolvidas também, o sono acumulado mais ainda. Ufa, ainda bem que tem um feriado aqui. Mas será suficiente? Eu sei que não. Mas também sei que depois dessa fase eu terei um tempo para processar tudo isso e recomeçar. Eu não vou parar.

Epílogo

É domingo de manhã (de novo). Dessa vez, não tem nenhuma mensagem assustadora me dilacerando. Eu não estou sozinha mais, mas também sei que você não está aqui e não vou poder ouvir sua voz num áudio que sempre começava da mesma maneira: “ei filha, papai do céu te abençoe, papai te ama”. Eu ainda não sei como vou continuar lidando com isso e absorvendo essa informação. Eu ainda não tenho coragem de re-ouvir esses áudios. Mas gosto de lembrar dessa sua fala que parecia uma gravação automática em todos eles. Era engraçado esse seu jeitinho de puxar assunto. Obrigada por ter sido assim, agora é mais uma boa lembrança que tenho de você.

Em um outro domingo de manhã, havia outras pessoas passando por uma despedida também. Mas a delas duraram pouco tempo, só 3 dias. Hoje, 2026 anos depois, ainda celebramos essa despedida temporária, é páscoa. Jesus também morreu, mas em 3 dias ele ressuscitou e nos deu A VIDA. E é por isso que consigo viver esse domingo de forma leve sabendo que você já está vivendo essa vida ao lado dele.

É domingo à tarde. Aquele que escolheu permanecer ao meu lado decidiu me tirar de casa para irmos para nosso “quintal”. Vamos à praia, tomar um sol, sentir o vento, a areia, o mar. Ótima decisão. Com certeza estou bem acompanhada. Vejo a imensidão do céu, do mar e sinto paz. Aquela paz que excede todo entendimento. Uma semana se passou. A pior semana da minha vida. Mas passou.

“E se passar, um dia vai

Pelo menos a tristeza virou poesia

Quando passar, porque eu sei que vai

O sentimento pelo menos virou melodia

Não da pra explicar, mas da pra cantar

Não da pra arrancar mas da pra dançar em cima da dor

Que veio só pra me inspirar”
(Hadassa –  Copo meio cheio)

Esse post faz parte da blogagem coletiva 5on5. E o tema deste mês foi “momentos da vida como se fosse capítulos de livro”. A semana de postagem do blog coincidiu com a semana que perdi meu pai. Aproveite para “terapeutizar” aqui vocês. Espero que compreendam o peso do post e recebam minhas palavras com amor. 

O blogs participantes foram:
www.estantedapipoca.com

– www.tamaravilhosamente.com

– www.imprevistosmusicais.com.br

– https://falacatarina.com/

– https://hospedariadepalavras.blogspot.com/

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